Entre os funcionários da Oi, existe um sentimento de falta de rumo e ausência de perspectiva em relação ao futuro da companhia e de uma transparência mínima sobre quais serão os próximos passos da gestão judicial da companhia. É o que relata a este noticiário João de Moura Neto, presidente da Fitratelp, uma das centrais sindicais que, ao lado da Fenatel e da Livre, enfrentam a complexa missão de buscar alternativas pactuadas em conjunto para todos os funcionário junto à administração judicial, conduzida pelo administrador Bruno Rezende. O relato de Moura bate, em linhas gerais, com outros relatos colhidos por este noticiário sob reserva diretamente com funcionários da empresa.

“A Oi está operacional, tem clientes e presta serviço, não é uma loja que faliu e fechou as portas. Mas tudo parou (na gestão). Está quase todo mundo em home office sem saber qual vai ser o próximo passo e o que é para fazer. As atividades são pontuais, quase automáticas”, diz ele. O receio, diz Moura, é que o futuro dos funcionários da Oi seja o mesmo dos da Serede, cuja falência foi decretada e todos foram dispensados “sem nenhum planejamento prévio”. Ele diz que, mesmo sendo desmobilizada, a Oi poderia estar recuperando ativos desativados na rede, como orelhões e armários, dando manutenção em dutos que podem ser explorados, buscando outros negócios na Oi Soluções, mas não é isso que se vê no dia-a-dia da empresa.
Prioridades
Ainda segundo o sindicalista, a Oi poderia, ainda, estar fazendo ajuste de custos. “Não tem sequer um plano de demissões montado, uma sinalização, não são oferecidas alternativas para os funcionários que querem sair mas têm muito tempo de casa. Parece que a empresa existe hoje apenas para pagar os credores”.
A Oi tem muitos funcionários antigos que teriam muito a perder se pedissem demissão. Além disso, por estar baseada no Rio, as opções de recolocação acabam sendo mais limitadas. A decisão de pedir demissão não é simples, “e com isso muitos ficam apenas esperando o dia seguinte”.
Segundo relatos ouvidos por este noticiário, em determinado momento houve a sinalização positiva de Bruno Rezende de que a ordem da Justiça era evitar a todo custo demissões em massa. “Mas a falta de horizonte preocupa, porque não sabemos até quando o caixa da empresa pagará os salários”, diz um funcionário.
Outra queixa, diz Moura, é que mesmo estando em Recuperação Judicial desde 2016, a Oi sempre teve uma referência de médio prazo, que era a perspectiva de sair da recuperação, com uma empresa enxuta, mas operacional. “Agora não tem isso. Não tem plano estratégico. Parece que a Justiça só está esperando a falência definitiva, mas a empresa tem clientes, tem a Oi Soluções, tem os serviços essenciais. Isso precisa ser cuidado e, o que for desmobilizado, precisa de planejamento”, diz o sindicalista. “As federações sindicais estão unidas nisso, a gente tem diálogo com o administrador Bruno Rezende, mas parece que nada avança, não vemos uma perspectiva de resolver a situação a não ser pagar os credores com os poucos recursos que ainda restam”, diz ele, reforçando que o trabalho tem sido feito em conjunto por Fenatel, Fitratelp e Livre.
Falência vs. recuperação
A decretação de falência da Oi com a continuidade das atividades, como chegou a ser determinada pela Justiça em primeira instância, teria, ao menos, preservado o patrimônio da empresa para pagar os débitos trabalhistas, que têm prioridade. Mas Bradesco, Itaú e V.tal recorreram da decisão e dos termos da decretação de falência, e com isso a empresa voltou para o estágio de recuperação judicial, mas em uma situação atípica, em que o plano de recuperação judicial é, sabidamente inexequível, e não existe outra alternativa sendo proposta. Isso preocupa os funcionários da empresa.
“Ninguém quer a falência de uma empresa, os funcionários querem continuar trabalhando. Mas no final vai sobrar o que? O certo seria os credores e acionistas assumirem a operação, ou pelo menos haver um processo de falência organizado, preservando o patrimônio, os contratos e com indenização dos funcionários, e não como foi na Serede em que até os funcionários do RH foram demitidos. Mandaram os funcionários devolverem os equipamentos e veículos e não tem ninguém sequer para dar baixa”, diz Moura.
Procurada para comentar as críticas e responder a estas dúvidas (ver abaixo), a administração judicial disse apenas que “a Oi sempre manteve canal aberto com os sindicatos e seguirá recebendo a todos, ouvindo com atenção as suas reivindicações e dirimindo as dúvidas. É importante destacar que todas as obrigações trabalhistas da companhia estão em dia e assim continuarão”.
Outros funcionários da Oi relatam um isolamento do administrador judicial em relação ao resto da empresa. Ele raramente se dirige aos funcionários e não sinaliza quais serão os próximos passos, segundo os relatos. A venda da V.tal, cujo leilão está marcado para o dia 5 de março, por exemplo, foi uma surpresa. O que se esperava, nesse momento, eram processos mais intensivos de venda de imóveis, o que não está acontecendo.
“Esperamos um compromisso primeiro com a empresa e os funcionários. Parece que não há clareza do que a empresa faz”, diz Moura.
Auxílio externo
No final do ano passado, a Juiza Simone Chevrand chegou a relatar que o administrador judicial havia solicitado o auxílio externo para estruturar o desenho de um novo plano de recuperação e uma orientação estratégica para a companhia. Também apontou que a empresa deveria ser gerida pelos credores, já que a falência havia sido revertida em segunda instância. Mas estas manifestações ficaram no limbo e, segundo apurou este noticiário, a sensação interna que prevalece é que a administração judicial está gerindo uma massa falida com uma folha salarial.
Este ano, o CNJ e a justiça foram questionados sobre a remuneração da administração judicial. Havia a perspectiva de que esse questionamento pudesse travar ainda mais a gestão da empresa, conforme relatou este noticiário.
Recentemente, a resposta da juíza Simone Chevrand foi que o percentual de remuneração estava em linha com o previsto em lei e com o porte da recuperação. Com isso, a remuneração foi mantida, causando ainda mais revolta entre os trabalhadores.
Moura diz que as federações de trabalhadores estão procurando o governo em várias instâncias. “Estivemos algumas vezes com a Anatel, com o Ministério do Trabalho e com parlamentares. Fomos ao Minicom e expusemos o cenário a todos, mas a resposta é que existe pouco a ser feito, considerando que a Oi não é mais uma concessionária”.
Fontes da Anatel confirmam que quando a Oi deixou de ser uma concessionária, o acompanhamento operacional e financeiro deixou de ser feito. Hoje, a prioridade da agência é recuperar parte das garantias e depósitos judiciais necessários à continuidade dos serviços essenciais e que foram liberados pela Justiça para a Oi pagar os credores. Mas nem Anatel e nem a Oi parecem ter, ainda, um plano de contingência sobre o que acontecerá com os serviços prestados pela Oi em seis mil localidades onde só a Oi opera, nem para o funcionamento dos telefones de serviços essenciais (tridígitos), num cenário de eventual falência.
Manifestação da Serede
Moura também critica a administração judicial da Serede por, supostamente, ter cortado os esforços de recuperação dos créditos da empresa junto à Oi e não estar cobrando da operadora, como acionista da Serede, de garantias de cumprimento das obrigações trabalhistas que ficaram após a falência. Nesse aspecto, a Serede respondeu:
1) Como a gestão da massa falida pretende recuperar os créditos que a empresa tem com contratantes, como a Oi?
Serede – A gestão da massa falida tem atuado de forma ativa e estruturada na recuperação dos créditos da Serede junto a seus contratantes. Estão em curso medidas administrativas e jurídicas voltadas à cobrança desses valores, incluindo tratativas diretas, sempre com o objetivo de maximizar a recuperação de ativos em benefício dos credores.
2) Já existe um levantamento do património e do passivo final da Serede?
Sim. Já foi iniciado o levantamento detalhado do patrimônio e do passivo da Serede, trabalho que vem sendo conduzido de forma técnica e criteriosa pela administração judicial, cujas conclusões serão apresentadas oportunamente nos autos, para ciência de todos os interessados. Esse mapeamento é fundamental para garantir transparência ao processo e subsidiar as próximas etapas da falência, incluindo a definição das estratégias de pagamento aos credores.
3) Existem tratativas para que a acionista principal (Oi) assuma parte do passivo da Serede?
O tema vem sendo acompanhado com atenção, no contexto dos processos legais em curso. Eventuais medidas ou encaminhamentos, em relação ao passivo, serão avaliados no momento oportuno e comunicados pelos canais oficiais, caso haja qualquer deliberação formal.
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Perguntas à Oi
TELETIME também enviou à administração judicial da Oi uma lista de perguntas, mas não houve respostas específicas a elas. As perguntas foram as seguintes:
1) As federações de trabalhadores estão preocupados que até aqui a empresa não apresentou um plano estratégico de direcionamento dos negócios para o caso de prosseguimento das atividades da empresa, nem um plano de demissões e enxugamento de gastos, para o caso de desativação da Oi. Há relatos de muitos funcionários sem orientação sobre o que fazer e quais as prioridades nesse momento. Como está sendo conduzida a gestão operacional da empresa e o projeto estratégico de curto e médio prazo?
2) Há algum plano de redução de custos operacionais e desligamento dos funcionários que hoje estão sem função?
3) Que medidas estão sendo tomadas pela gestão da companhia no sentido de preservar o patrimônio existente (elementos de rede como cordoalhas, pontos de fixação, dutos etc), imóveis e veículos?
4) A Oi está perdendo contratos na Oi Soluções e, portanto, receitas. Existe um direcionamento estratégico de preservação das atividades de atendimento ao mercado corporativo pela empresa? Estão ainda sendo buscados compradores para a Oi Soluções?
5) A Juiza Simone Chevrand determinou no final do ano passado a contratação de uma assessoria para a elaboração de um plano de recuperação ajustado à nova realidade . Em que estágio está esta contratação ou, se já houver uma consultoria, para quando é esperada a apresentação do plano?
6) Os recursos acessados pela Oi de depósitos judiciais e garantias com a Anatel estão sendo utilizados no pagamento dos leilões reversos de fornecedores e credores extraconcursais. Qual a previsão de caixa da empresa para o curto prazo após esses leilões?
7) Com a falência da Serede, existe alguma previsão de que a Oi, como acionista principal da empresa, assuma os passivos trabalhistas e concursais da empresa?
8) A Oi ainda pretende transferir os serviços essenciais prestados como parte do acordo de migração das concessões com a Anatel, sobretudo o atendimento de localidades e os serviços de tridígito, para outros fornecedores? Como estão essas negociações?
9) Considerando que, por determinação judicial, a remuneração do administrador se dá pelos valores que serão efetivamente pagos aos credores, qual a preocupação do gestor com a preservação da capacidade operacional da empresa e redução do passivo junto aos credores?
Fonte: Teletime.com.br
Foto: Divulgação










